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	<title>Mayra Redin &#8211; Revista Tatuí</title>
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	<description>Revista de crítica de arte</description>
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	<title>Mayra Redin &#8211; Revista Tatuí</title>
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		<title>[LADO A] cartas. do deslocamento espaço-emocional</title>
		<link>http://www.revistatatui.com.br/edition_text/lado-a-cartas-do-deslocamento-espaco-emocional/</link>
				<pubDate>Fri, 31 May 2019 20:17:08 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Revista Tatuí]]></dc:creator>
		
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								<content:encoded><![CDATA[<p>Olinda, quatro de setembro de 2010.</p>
<p>Querida Ma,</p>
<p>Ultimamente, não tenho dado conta do excesso de cansaço que tem me tomado. Não são raros os momentos que me pego pensando em Terra UNA <a href="#_ftn1" name="_ftnref1">[1 &#8211; Ecovila localizada na Serra da Mantiqueira – MG que promoveu o Prêmio Interações Florestais 2010 de residência artística com o patrocínio da FUNARTE/MINC.  De 08/03 a 04/04/2010 acompanhei, como crítica de arte convidada, os trabalhos de quatro artistas, entre esses Caroline Valansi e Mayra Redin, que se tornou grande amiga. Na ecovila os acessos à internet e ao uso do telefone celular eram limitadíssimos, por isso decidi acessá-los apenas uma vez por semana quando íamos à cidade de Liberdade-MG. Nessa edição do prêmio, além dos espaços da Ecovila, os artistas interagiram com o Ponto de Cultura e Sustentabilidade gerido por Terra UNA nesta cidade. http://www.terrauna.org.br]</a>. E em como vários aspectos daquela vivência nos colocaram num ritmo de prazer imenso de estar vivo.</p>
<p>Lembro bem que quando aceitei o convite para participar daquela experiência, imediatamente fui inundada de certo pânico quando percebi a quantidade de deslocamentos que haveria de enfrentar para estar dedicada a um trabalho ali por um mês. Outro estado, outra cidade, outros obstáculos a serem vencidos no dia a dia – que aqui em Olinda já não eram mais possíveis imaginar: escuridão, mosquitos, lama, alimentação ovo-láctea-vegetariana, vida intimamente compartilhada&#8230;</p>
<p>Mas bastou vencer a subida da serra, talvez o maior dos medos que tive que lidar. A vida, muito rapidamente, a despeito de minhas próprias dificuldades de adaptação, criou sua rotina pacífica. Apesar dos muitos quilômetros que percorríamos em nossas pequenas expedições pelos arredores da nossa <em>Tartaruga </em><a href="#_ftn2" name="_ftnref2">[2 &#8211; Nome da casa que moramos durante a residência.]</a>, não chegava no fim do dia com essa sensação (atualmente costumeira) de completa exaustão.</p>
<p>Sinto falta da hora de dormir, abrigada pelo silêncio e escuridão seguros.</p>
<p>Ali, bastava dar conta do <em>diariamente</em> – por vezes cutucado por um turbilhão de saudades do(s) que havíamos deixado –, porque era certo que, quando a noite caísse, haveria o conforto de estar em <em>casa</em>. Penso que em Terra UNA vivemos numa espécie de ilha espaço-emocional. Uma suspensão do tempo, um deslocamento do corpo e da alma para um lugar seguro de entrega e liberdade.</p>
<p>A vida aqui de volta é bem diferente. Não há ilha. Em meu cotidiano preciso empreender dezenas de deslocamentos, ainda que não precise dar, sequer, um passo. Em frente da tela, habito territórios diversos ao mesmo tempo. Convivo com tantas pessoas que não dou conta de abrigá-las, nem desabrigá-las, aqui, em (de) mim.</p>
<p>Pela janela luminosa, tenho que dar conta de um diariamente – por sua natureza, sempre (in)comum. Não sei com quem vou estar. Nem onde irei chegar. Ainda assim, sempre latentes as vivências das perdas e das construções de novas possibilidades. Nessa terra, de ninguém e de todos simultaneamente, preciso dar conta de passados, de futuros, de presentes expandidos. A jornada nunca acaba, tampouco é possível, ainda que a noite caia, voltar para <em>casa</em>.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Beijos saudosos,</p>
<p>.a</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Porto Alegre, 7 de setembro de 2010</strong></p>
<p>Ana, querida&#8230;</p>
<p>“Não há ilha”.</p>
<p>A ilha de que você fala talvez seja este espaço para um novo corpo. Um novo corpo é um novo jeito de sentir. Como se faz para sentir diferente de sempre?</p>
<p>É esta pergunta que me faço quando percebo que estou, como você, simbiotizada pela cidade, pela rotina, pelo cotidiano, pelas pessoas que amo, pelas tarefas que escolhi realizar, pelas escolhas que nem sei que fiz.</p>
<p>É aí que entra a ilha.</p>
<p>Como construir ilhas mesmo sem se deslocar geograficamente?</p>
<p>Penso que a experiência de Terra UNA possibilitou um deslocamento geográfico ao mesmo tempo em que “espaço-emocional”, como você disse. Ou melhor, deslocamentos geográficos (que envolvem mudanças de terras abaixo dos nossos pés, mas também mudanças de jeitos de pensar a vida, de viver, de conviver, mudanças de rotinas, de paisagens horizontais e céus, mudanças nas manhãs e nas idas do sol, etc.) provocam deslocamentos nas nossas vivências “espaço-emocional”.</p>
<p>A experiência de residência artística, no caso de Terra UNA, é a experiência de habitar uma nova casa por um tempo determinado. Acho que o tempo preestabelecido torna a vivência mais intensa. Dentro deste tempo de um mês, convivendo com a proximidade (e aqui diria que convivemos com a convivência, o que em nossas grandes cidades se torna menos constante), convivendo com o ar puro e as águas de cachoeira, e também com os mosquitos e bichos desconhecidos, acabamos convivendo com nós mesmos: nós outros de nós mesmos.</p>
<p>Mudar de casa é mudar de corpo. Nem que seja provisório. Mesmo sabendo que a provisoriedade não garante o retorno ao mesmo anterior. Talvez somente por isso, Ana, você tenha se perguntado o porquê do seu cansaço. Somente porque não voltou para a mesma casa de que saiu. E nem se voltássemos a Terra UNA, encontraríamos a nossa <em>Tartaruga</em>. Talvez não se trate de retornos, de buscas mesmas, e sim de um ir adiante. A estrada nunca termina e é entediante voltar pelo mesmo caminho. Mas independente deste tédio, mesmo que quiséssemos a estrada de volta, a mesma não seria a mesma. Fato é que não decidimos quase nada.</p>
<p>Pensando nisso, me lembrei da mais forte sensação que vivi em Terra UNA. É como se até então eu não tivesse noção (percepção talvez) da grandiosidade do universo e da infimidade do homem na terra. A sensação de estar abaixo e acima ao mesmo tempo (mudando o eixo, a referência e as escalas do visível, do tátil). Na verdade, a sensação de não saber onde se está. De perder o sentido de lugar/espaço/proporção. Não ter a capacidade de perceber estas relações, tanto do grandioso, quanto do mínimo. Claro, a gente sente isso frente a outras situações que nos acometem também dentro das cidades, mas em Terra UNA isso tudo se tornou cotidiano. E foi a partir desta sensação que passei a me relacionar com o entorno.</p>
<p>Eu queria simplesmente ver passar. Ver como é que passam e voltam (sempre outros?): o sereno, as águas da cachoeira, a noite, os dias. Isso que independente da gente, passa. Talvez o sereno, a chuva, a cachoeira seja o que se vê de todo o processo que não se vê. Em Terra UNA, compreendi que estamos entre.</p>
<p>E estar entre é o que desloca.</p>
<p>Saudade</p>
<p>Mayra</p>
<p><a href="#_ftnref1" name="_ftn1"></a></p>
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										</item>
		<item>
		<title>[LADO B ] Olinda, 15 de outubro de 2010</title>
		<link>http://www.revistatatui.com.br/edition_text/olinda-15-de-outubro-de-2010/</link>
				<pubDate>Fri, 31 May 2019 19:36:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Revista Tatuí]]></dc:creator>
		
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				<description><![CDATA[<p>Amiga querida! Lendo sua carta fiquei me lembrando do corpo-passarinho que criamos para habitar o ninho de Caroline. Então me passou pela cabeça o tanto de deslocamentos geográficos (e não só geográficos) realizados por nossas cartas desde que começamos a nos escrever. De Olinda para Porto Alegre, de Porto Alegre para São Paulo, de São [&#8230;]</p>
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]]></description>
								<content:encoded><![CDATA[<p>Amiga querida!</p>
<p>Lendo sua carta fiquei me lembrando do corpo-passarinho que criamos para habitar o ninho de Caroline. Então me passou pela cabeça o tanto de deslocamentos geográficos (e não só geográficos) realizados por nossas cartas desde que começamos a nos escrever. De Olinda para Porto Alegre, de Porto Alegre para São Paulo, de São Paulo para Olinda e imagino que agora a carta vá para Belo Horizonte&#8230; Uma carta-pombo-correio fazendo par com nossos corpos-passarinhos.</p>
<p>Eu gosto desta ideia do corpo-passarinho. Primeiramente, por isso que você narrou, relacionado diretamente ao “passarinho &#8211; ser vivo” que o trabalho de Caroline nos suscita através da experiência do ninho. Mas também gosto do corpo-passarinho pela sutileza que ele estabelece. Uma existência tímida e sutil: que voa porque sim, que come porque sim, que faz o ninho porque sim. Porque vida. E que nem por isso deixa de ser complexa, a vida.</p>
<p>A complexidade é justamente este “corpo-encarnado”, como você disse. Corpo que é: emocional, intelectual, espiritual, material&#8230; E por ser tudo isso ao mesmo tempo é político, e mais do que isso (ou seria menos?), é corpo micro-político. Aqui volto à sutileza do corpo do passarinho: voar pelas brechas; construir o ninho com o que está ao seu redor; partir da vida mesma lá onde ela é necessidade, para construir um entorno de desejo.</p>
<p>Estamos falando de arte? Creio que as proposições de experiência (tanto no trabalho de Caroline quanto no meu) fazem perguntar se a experiência é arte. Ou onde está a arte na experiência. São perguntas que sempre me remetem a uma outra pergunta: como funciona este movimento de propor e de fazer (se) experimentar?</p>
<p>Você contou da sua vivência junto aos nossos trabalhos. Falou da sua <em>experiência nua</em>, na qual não há verdade ou essência percebida por todos de igual forma. Para mim, a proposição de <em>Sob (re) sereno</em> funcionou assim: partiu de uma ideia tímida de observar a formação do sereno. Realizar é algo forte, é existir, fazer existir. Eu preciso do outro para ver e fazer existir qualquer coisa que seja. Há a necessidade do outro para compartilhar a experiência do inútil. Contar deste desejo é também fazê-lo existir. A partir do momento em que as pessoas ao meu redor passam a participar (de alguma forma – e aqui incluo imaginar, inventar, fazer, discutir, etc.) disto que é apenas um desejo, aí o trabalho surge. Surge de uma incapacidade de apreender, já que o sereno é algo tão efêmero e translúcido. Desta inapreensão visual surge a proposição de criar estruturas que permitam a observação de uma passagem.</p>
<p>Vejo que o “Ninho de Gente” de Caroline Valansi parte também de um desejo de construir. Construir e habitar a construção. Assim como a construção do observatório de sereno, o <em>Ninho de Gente</em> torna experimentável algo que sim, faz parte do nosso cotidiano (a vida ínfima dos passarinhos e o ciclo rotineiro do sereno), mas que não percebemos. Acho que se trata de uma “re-invenção” (“do espaço, do tempo, do uso vulgar das coisas e situações cotidianas”, como você escreveu): reinvenção proporcionada pela proposição do artista (e aqui inclui-se todo o processo de construção de uma proposta) e a reinvenção  vivida pelas pessoas que se propõem a construir e experimentar tais proposições por vezes estranhas e deslocadas.</p>
<p>Ainda: penso que estes são trabalhos que não existem sem a experimentação do <em>outro</em>. E penso que é preciso propor-se para tal, assim como você se propôs. Há um incômodo nisto. O incômodo de deslocar-se (em todos os sentidos que já falamos)&#8230;</p>
<p>Aqui lembro de Paul Valèry em sua frase célebre “o mais profundo é a pele” e de Suely Rolnik em suas leituras de Deleuze e Guattari.É pela pele que o corpo se des-forma e passa a abrigar o corpo-passarinho, o corpo-coletor, o corpo-passagem. É por esta pele agitada e porosa que as novas experiências alojam-se (nunca para sempre e nunca de forma estável).</p>
<p>É uma espécie de alergia que toma conta. Estado alérgico que deve ser necessariamente desejado e provocado (e por vezes contagiado), no qual a pele arde, coça, comicha e deseja sempre coçar mais. Ao mesmo tempo, quer que acabe, que pare; ao mesmo tempo, deseja estabilizar, inerte, para a respiração voltar à sua constância – um descanso, um tempo para acomodar a pele novamente&#8230; Pronta para novas alergias. Acho que há também, junto com o incômodo, um grande entusiasmo&#8230;</p>
<p>uma letra que muda de lugar<br />
<em>elle se déplace<br />
</em>deixando<br />
alergia e alegria</p>
<p>Penso que é esse o desejo do meu trabalho e do de Caroline: provocar a pele. As nossas, as dos outros. Provocar não com a arrogância da autoria ou com as pretensões de grandes mudanças. Não. Penso que aqui a aposta é mesmo no mínimo. E para criar este universo mínimo é preciso pensar/viver mínimos detalhes. É toda uma construção de entorno, de encontros, de formas de propor. É toda uma desconstrução de concepções e vícios que o artista traz na sua bagagem.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Beijo,</p>
<p>Carinho</p>
<p>Mayra</p>
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										</item>
		<item>
		<title>[LADO B] cartas. do deslocamento político-espacial</title>
		<link>http://www.revistatatui.com.br/edition_text/cartas-do-deslocamento-politico-espacial/</link>
				<pubDate>Fri, 31 May 2019 19:31:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Revista Tatuí]]></dc:creator>
		
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				<description><![CDATA[<p>Belo Horizonte, quinze de outubro de 2010. Querida, Nesses dias estive às voltas com aspectos sobre deslocamento que me ocorreram agora há pouco, enquanto transito por tantos lugares ininterruptamente nesse último ano. Daqui, ainda vou ao Rio de Janeiro, passo brevemente em Olinda, depois Fortaleza, alguns dias em Recife e retorno a São Paulo; de [&#8230;]</p>
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]]></description>
								<content:encoded><![CDATA[<p>Belo Horizonte, quinze de outubro de 2010.</p>
<p>Querida,</p>
<p>Nesses dias estive às voltas com aspectos sobre <em>deslocamento</em> que me ocorreram agora há pouco, enquanto transito por tantos lugares ininterruptamente nesse último ano. Daqui, ainda vou ao Rio de Janeiro, passo brevemente em Olinda, depois Fortaleza, alguns dias em Recife e retorno a São Paulo; de lá vou a Belo Horizonte novamente, sigo para Vitória e talvez passe o dia de natal em Florianópolis.</p>
<p>Acabei por entender que os deslocamentos espaciais por si mesmos nos requerem deslocamentos “espaço-emocionais” e, quando associados às residências artísticas, nos disponibilizamos também a viver deslocamentos outros, da ordem da subjetividade, ativados pelas experiências estéticas (e estésicas).</p>
<p>A ideia de <em>lugar</em> me remete a uma circunstância muito relevante que mal nos damos conta. <em>Lugar </em>imediatamente me traz a presença de alguém, quase sempre, que se liga a nós por uma relação de afeto. Nesse sentido, daí pensando mesmo numa dimensão ética, cada <em>lugar</em> pede de nós posicionamentos. Não sem motivo também políticos.</p>
<p>Posicionar-se politicamente, ao que me concerne, tem a ver com envolvimento, entrega, engajamento. Com assumir responsabilidades (que sejam também pela alegria da convicção). Para mim, já não dá para não levar a vida, as pessoas, as situações, como se não fizessem parte de mim e como se também não se tratassem de construções minhas.</p>
<p>O político, já de tanto tempo atrás, vem da ideia de constituirmos seres sociais – <em>da polis</em>. Da possibilidade de nos colocarmos como vozes, também como <em>lugares</em> de acessibilidade tanto quanto de dispersão de ideias, pensamentos-gestos que se colocam no mundo e pedem também abrigo, resposta, diálogo.</p>
<p>Quando me vejo nesse deslocamento (em todas essas instâncias em que temos considerado), acredito que não posso deixar que as situações, pessoas e coisas passem por mim despercebidas, sem que eu tenha com elas uma responsabilidade de me debruçar <em>acerca de</em>. De considerá-las e absorver (e/ou repudiá-las) também como minhas.</p>
<p>Talvez tenha sido inimaginavelmente danosa a construção político-governamental que hoje ainda se dá por representatividade (partidos políticos e seus mandatários). Mais notadamente à nossa distância, ao que concerne à responsabilidade das ações desses partidos-mandatários, como se não fosse nossa a escolha, a delegação, a outorga das gestões. O que é público nos parece coisa distante. Frase de efeito apenas: dinheiro público = nosso dinheiro. Mas que se vivêssemos mesmo essa afirmação, não haveríamos de deixar correr tão soltas as rédeas do que acontece em nossos governos.</p>
<p>Estou divagando, eu sei. Talvez sejam esses dias que antecedem mais uma eleição presidencial. Estou inundada de tanta expectativa em certos aspectos, contudo, completamente impregnada de descrença em mudanças significativas. Ainda não me é possível voltar a acreditar em um <em>nós</em>, quanto mais num <em>eles </em>cada vez mais descolado do eu subjetivo, tanto quanto do <em>eu</em> objetivo (de novo o <em>nós). </em></p>
<p>Fiquei lembrando daquela conversa que tivemos em Terra UNA sobre arte e política, na qual você dizia que sua posição política em relação à arte (e na vida) era de sinceridade. De vivenciar suas próprias propostas artísticas, sem usar os simulacros como muletas, tampouco se entregar às demandas do mercado. Penso que é esse o caminho. Também procuro ter com e através da Tatuí relações de sinceridade tanto no que diz respeito à minha escrita, pesquisa, quanto da convivência com artistas, críticos, curadores, público&#8230;</p>
<p><em>O projeto Tatuí</em> – nossas atividades há muito já extrapolaram apenas a edição da revista impressa: hoje promovemos experiências imersivas de elaboração de textos em residências e laboratórios – sobrevive por sua autocrítica e transparência. Procuramos sempre rever nossos posicionamentos sem cinismo. Porque, ao que me parece, as atuais formas de crítica (também autocrítica), resumem-se ao apontamento da mera perversão – do mundo, cotidiano, mercado, arte –, das contradições. Não à toa surgem as falas do ressentimento. Trabalhos (e textos) que reproduzem as perversões e nos fazem re-sentir as situações negativas, criando um movimento circular, uma imobilidade. Ao contrário disto, a autocrítica (e crítica) que procuro imprimir passa pela vontade de reconstrução das situações. É movimento para fora, transmutação, entropia.</p>
<p>Talvez eu esteja inevitavelmente condenada à utopia e à pieguice. Mas quando me proponho viver os deslocamentos – fazer e promover residências, visitar tantas cidades à trabalho (e por muito prazer) –, penso que não posso apenas flanar, mas marcar e me deixar marcar pelas presenças de todos esses <em>lugares</em> (subjetivos-pessoas, objetivos-espaços).</p>
<p>Grande beijo,</p>
<p>.a</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Porto Alegre, 08 de novembro de 2010</strong></p>
<p>Ana amiga,</p>
<p>É bonito quando descobrimos as micro-políticas que criamos e que nos envolvem. Nos nossos trabalhos, nas nossas relações, nos nossos modos de viver. Penso que criar micro-políticas é necessariamente estar atento (sentindo-se responsável) ao que se constrói e ao que se destrói (sem esquecer do acaso agindo independente da gente tanto no que se constrói, quanto no que se destrói).</p>
<p>O sentir-se responsável talvez aponte para um modo de viver indispensável nas nossas vidas hoje. Justamente por nos darmos conta de que não existem essências e verdades prontas, é que a estratégia de atenção e de “movimento para fora” torna-se fundamental para que possamos construir o que quer que seja. Penso na Tatuí (no que você conta, nas páginas que leio), penso nos pequenos movimentos de alguns artistas através de seus trabalhos, penso em “La Borde”<a href="#_ftn1" name="_ftnref1">[1 &#8211; Clínica Psiquiátrica na França criada por Jean Oury em 1953. Tem por princípio a psicoterapia institucional que busca meios para que o paciente tenha acesso à singularidade.]</a> e penso em Terra UNA. Penso em tudo isso existindo. Fazendo-se existir dia após dia concretamente. Mas aqui neste texto, escrevendo através das lembranças de contato, tudo isso me vem como construção que envolve trabalho, mas também sonho, desejo, imaginação&#8230;</p>
<p>Estive por alguns dias em La Borde no ano de 2009. Não fui capaz de fotografar, filmar, escrever. Qualquer que fosse a tentativa de registro me pareceu incapturável e talvez medíocre no caso daquela experiência.</p>
<p>Os pacientes habitam um antigo castelo. Existe muito verde ao redor e caminhando um pouco você logo se depara com esculturas e vestígios de tinta que colorem entradas. Ao adentrar o salão principal do castelo, eu encontro cachorros, gatos, pessoas, mesas, um lindo lustre, fumaça de cigarro que sobe, de diversos cigarros, fumaça que se torna uma só e grande nuvem. A luz do sol de final de tarde alaranjeia tudo ao redor. Eu não sei quem são os médicos, quem são os pacientes, os enfermeiros, os visitantes. Todos se misturam e usam suas roupas de cada dia, assim como as pessoas nas ruas. Todos que querem fumar fumam. Não há jaleco, nem plaquinha na lapela que assegure os ofícios. Ao iniciar a assembleia (que acontece cotidianamente), alguém pede que eu me apresente. Com meu francês ruim, me ocorre que a partir daquele momento eu também passaria a fazer parte das incógnitas daquele lugar. Uma incógnita, neste caso, não é nada que deva ser desvendado, pelo contrário, uma incógnita é o que faz de cada um singular. Apesar disto, há sempre aqueles que desejam desvendar e é assim que estendo minha mão para uma mulher de cabelos brancos e olhos profundamente azuis, que imediatamente resolve me lamber.</p>
<p>A discussão da assembleia trata de resolver um pequeno problema: dentro de alguns dias La Borde receberia uma visita com o intuito de fiscalizar a higiene do hospital. Gato pode dentro do castelo, cachorro não, segundo as normas. A discussão se desenvolvia desde dias e o ponto daquele momento era: como fazer com que os cães entendam que é só por uns dias?</p>
<p>Há sempre a possibilidade de que a encenação não cole. Neste caso há a chance do hospital fechar. Sempre foi assim e sempre é assim: tudo que existe de uma maneira está sujeito a ter que se modificar. Mas em La Borde (e eu diria que também na Tatuí e em Terra UNA), é o movimento e a invenção que compõem a maneira de existir, por princípio. Ou seja, ao se autogerir, ao confundir papéis, ao colocar em questão assuntos que talvez fossem mais fáceis de resolver usando de uma norma, a instituição toma o “estar atento”, o se “sentir responsável” como motor próprio da sua possibilidade de continuação. É justamente a possibilidade constante de se chegar a um fim que move a construção de soluções, estas sempre calcadas nos desejos que se constroem coletivamente já que todos têm o mesmo direito de voz.</p>
<p>Isso explica a serenidade de Jean Oury, com seus oitenta e poucos, caminhando por entre a gente, com poucas palavras interventivas acerca da tal visita fiscalizadora. São os meios. O quanto de vida se produz quando estão em jogo decisões que envolvem fins. O fim não interessa, nem a origem, o que interessa são os desejos que se criam quando nos colocamos em situações onde devemos tomar decisões coletivas.</p>
<p>La Borde estendeu-se por estas linhas&#8230; E inscrevendo esta experiência através de palavras (“favorecendo a circulação da palavra” como está escrito no site<a href="#_ftn2" name="_ftnref2">[2 &#8211; http://www.cliniquedelaborde.com/]</a> da instituição) penso nas aproximações com a proposta da Tatuí (descrita em sua carta) e de Terra UNA.</p>
<p>Em Terra UNA o consenso é um dos motes de funcionamento. Conversando com alguns moradores, ficou claro o quanto o exercício de se chegar a um consenso faz com que cada vez mais eles conheçam os próprios desejos e os desejos uns dos outros. Uma abertura aos movimentos, já que ao entrar em contato com o que quero e com o que o outro quer, passo a experimentar o desejo deste outro para medir até que ponto posso abrir mão do meu. Isso não quer dizer que seja simples, e nem se quer simples. Na complexidade se afinam singularidades, se experimentam novos modos de vida e assim o movimento põe em funcionamento a invenção do dia a dia, invenção de desejo coletivo.</p>
<p>Bem, passando pelas experiências de La Borde, da Tatuí e de Terra UNA, o que me bate é a importância do que a gente chamou de “atenção” e “responsabilidade” para que estas maneiras de existir não se cristalizem e acomodem. Cada uma, à sua maneira, inventa formas de se colocar questões e assim se recriar. É essa mescla da diferença, é essa abertura que treme a pele, sem querer igualar, concordar, nomear, que faz destes lugares espaços micro-políticos.</p>
<p>Também me sinto condenada à utopia e à pieguice e penso que me basta sonhar o desejo. É este o lugar político do sonho: sentir-se entusiasmado com alguma novidade ou algo a ser feito, sentir um doce incômodo ao encontrar (com) um corpo – outro – diferente.</p>
<p>Saudades,</p>
<p>Mayra</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><a href="#_ftnref1" name="_ftn1"></a></p>
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