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	<title>Max Hinderer &#8211; Revista Tatuí</title>
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	<description>Revista de crítica de arte</description>
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	<title>Max Hinderer &#8211; Revista Tatuí</title>
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		<title>A PRIMA do Hélio, a pemba da marginália, o pó da boemia: anotações —Inside the Héliocopter</title>
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				<pubDate>Fri, 31 May 2019 22:21:49 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Revista Tatuí]]></dc:creator>
		
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								<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;"><em>Tradução Isabella Atayde Henrique </em></p>
<p>Vendo o panorama discursivo que enfrentava ao pesquisar sobre as interseções cinematográficas na obra de Hélio Oiticica, percebi que querer falar das instalações quase cinematográficas<em> Cosmococa-programa in progress</em>, como exemplo mais famoso e aparente, necessariamente resultaria na busca de como poder falar em vários planos ao mesmo tempo. Aqui não só se misturam arte e cinema, mas também categorias em um outro plano maior. A cocaína destaca absolutamente a margem de categorias e instrumentação analítica comuns na história da arte. Falar sobre <em>Cosmococa, </em>então, implica sobretudo duas coisas: querer falar do artista considerado o mais famoso dos artistas brasileiros do século XX em nível internacional, Hélio Oiticica; com todo o magnífico e heterogêneo corpo de obras que isso abrange, desde antes dos<em>Núcleos</em> até depois dos<em>Quase-Cinema</em>. E ao mesmo tempo, implica querer falar da história de uma substância ilícita e condenada moralmente — Cocaína — com toda a bagagem histórica, política e econômica que ela carrega. De fato, não é uma combinação fácil, porque a dimensão da representação do primeiro parece contradizer-se com a dimensão subterrânea do segundo. Sem falar das quantidades de livros que foram escritos sobre cada um dos temas independentemente (sobretudo sobre a coca e cocaína), que parecem impossíveis de serem abrangidos. Mas dada a ocasião, escrevendo para a Tatuí #13, pensando em como falar da economia midiática expandida do encontro arte/cine, hoje gostaria de desenvolver apenas umas ideias para criar uma consciência crítica deste espaço de interseção, no qual a cocaína se converte na cocaína de Hélio, sua PRIMA, como ele costumava chamá-la com carinho, e assim compreender as Cosmococas não somente como um dos encontros mais memoráveis entre a linguagem da arte e do cinema brasileiro, mas como um espaço de interseção múltipla, em que diferentes circuitos discursivos, circulações econômicas e fluxos energéticos convergem. Sobretudo um espaço cuja urgência política espera ser explorada fora dos padrões acadêmicos e suas respectivas disciplinas herméticas. Mas de que tratamos quando falamos de Cosmococa como alinhamentos entrecruzados ou circuitos convergentes?</p>
<p style="text-align: right;">                                               &#8212; Max Jorge Hinderer Cruz, Berlim, 29 de março de 2012</p>
<blockquote><p>&#8230; um outro Heliocóptero que veio seguramente de um outro &#8220;plá&#8221; anunciando um outro mundo, confirmando o precário como novo conceito, a magia do ato na sua imanência e também a negação do objeto que perdeu toda sua carga poética ainda projetada, para se transformar num poço onde a multidão se debruça para se encontrar na sua essência.</p>
<p style="text-align: right;">                                               &#8212; Carta de Lygia Clark a Hélio Oiticica, Paris, 26 de outubro de 1968</p>
</blockquote>
<p>Se é possível dizer simplesmente, como Hélio Oiticica escrevia em uma carta à sua amiga íntima Lygia Clark &#8212; “ CRÍTICO OU É DA POSIÇÃO DE ARTISTA OU NÃO É” &#8211;, confesso que minhas obras favoritas de Hélio Oiticica são as chamadas bloco-experiências, ou bloco-experimentos,<em>Cosmococa-programa in progress</em>(1973-74): as primeiras cinco colaborações com Neville D’Almeida (CC1-CC5), que aqui dou por conhecidas, uma outra menos conhecida com Thomas Valentin (CC6), e outras três inacabadas com participações programadas de Guy Brett, Silviano Santiago e Carlos Vergara (CC7-CC9). Inclusive, penso em algumas séries de<em>slides</em> particulares e fitas de áudio batizadas <em>Héliotapes</em> por Haroldo de Campos, material Super 8 e outras proposições soltas, que se encontram no arquivo do Projeto Hélio Oiticica e que giram em torno de <em>Cosmococa</em> como se fossem seus satélites, interferindo com as órbitas das demais referências-satélite que giram em torno de Oiticica, tais como: Mario Montez, John Cage, Soussândrade, Mick Jagger e seu “Sweet Cousin Cocaine”, Freud, Fanon, Malevitch, Nietzshe, Rimbaud, McLuhan, para citar alguns. E se é possível dizer simplesmente, também confesso que <em>Cosmococa</em> foi minha favorita, desde que vi pela primeira vez uma das instalações, <em>CC5-Hendrix War</em>, instalada no Museu de Arte Moderna de Viena (MUMOK) em 2003, mostrando o rosto de Hendrix com pintura de guerra traçada por linhas de cocaína. Eu, um jovem estudante de artes plásticas nos primeiros anos, criado na Bolívia, pressentia que o que D’Almeida e Oiticica em um nível semiótico estavam fazendo com a coca, planta sagrada dos povos andinos, era comparável ao que Caetano tinha feito com o violão de madeira uns anos antes: eletrificá-lo. E tampouco era nada diferente da eletromacumba que estava celebrando Hendrix enquanto cantava seu hino aos Black Panthers e literalmente colocava fogo em seu violão: “cause I’m a voodoo child / Lord knows I’m a voodoo child baby / Yeah!” Não sabia muito de Tropicália, mas o suficiente para entender que o que estava vendo era nada menos que um tropicalismo farmacológico ao <em>beat</em> da diáspora.</p>
<p>É por este forte impacto que teve minha primeira experiência com a <em>Cosmococa</em>, que pesquisando sobre a importância da cocaína para a obra de Hélio Oiticica, costumava deter-me em vão com o deliberado desprezo que enfrentava ao ler textos de supostos expoentes da história da arte política latinoamericana. Não podia entender: por acaso não viam que a história da coca, e logo da cocaína, em que D’Almeida e Oiticica se inscreviam, era profundamente política e intrinsecamente ligada à história da economia e lógica colonial, até os dias de hoje? Que a coca é inseparável da própria resistência ao colonialismo pré-republicano, inseparável também do cume de organização anarcossindicalista no continente americano do século XX, e inseparável da subsequente criminalização da luta dos movimentos sociais hoje por parte das Nações Unidas? Consequentemente, eu começava a desrespeitar o trabalho de pesquisadores como Luis Camnitzer ou Mari Carmen Ramírez por sua miopia moral, por mais que sejam considerados avanços importantes para a disciplina da história da arte latinoamericana.</p>
<p>Foi aí que me dei conta: justamente nesses textos se refletia uma maneira fantasmagórica, como de um velho conflito entre os ativistas políticos no Brasil no fim dos anos 60 ou começo dos anos 70, e o que foi a cultura marginal, <em>Marginália</em>, a contracultura subterrânea nos centros urbanos do Brasil e nas metrópoles que acolheram seus agentes exilados, Londres, Paris, Nova Iorque, etc. A cultura política da esquerda organizada, depois de 68, criticava a subcultura marginal de maneira pejorativa como <em>desbunde</em> político, oportunista em sua transgressão moral/sexual e subalterna à indústria cultural <em>yankee</em>. Enquanto isso, os da contracultura criticavam os partidários da esquerda “tradicional”, afirmando que o que lhes faltava era justamente serem desbundados da lógica dicotômica da Guerra Fria, e subsequentemente de sua subalternidade ao princípio da realidade e seus padrões paternalistas-chauvinistas-dogmáticos.</p>
<p>De certa forma, a história da arte parece ter herdado esta oposição, ou melhor dizendo, parece tê-la conservado à sua maneira idiossincrática. No discurso sobre a arte de Hélio Oiticica, isto se expressa na maneira de dividir sua obra em<em>antes</em> de 69/70 e <em>depois</em> de 69/70. Esta é uma referência ao momento no qual Oiticica vai a Londres para apresentar sua legendária exposição na Galeria Whitechapel em 1969, seguida por sua viagem a Nova Iorque em 1970 para sua contribuição à exposição <em>Information</em>no MoMA. A referência inclui a sua volta a esta mesma cidade no mesmo ano, a fim de assumir uma bolsa Guggenheim e ficar até 78 vivendo em condições precárias em Nova Iorque, porque voltar ao Brasil, para dizer em uma só palavra, lhe parecia “desastroso”. <em>Antes</em>, no imaginário predominante, Oiticica era o artista de vanguarda modernista brasileiro, lutador pela liberdade nacional, e <em>depois —</em>continuamos na narrativa predominante — se converte no “artista trágico” (empregando um conceito estritamente contrário ao usado por Nietzsche e Oiticica), que depois de ver suas “utopias desvanecerem” e “inspirado pelo mundo das drogas e discotecas”, se deixa levar pela moral dúbia dos prazeres “fáceis”, isto é, se torna marginal de verdade. O mais comum é que se fale de um Oiticica <em>antes</em> do exílio (“exílio voluntário”) e <em>depois</em> do exílio, sem poder evitar colocar no último um tom miserável.</p>
<p>Dois comentários pessoais ao respeito: (1) Considerando a complexidade da obra de Oiticica, fazer uma diferença entre a obra <em>made in Brazil</em> e a obra <em>no-made in Brazil</em> parece uma categorização pouco eficiente. Sobretudo se alguns dos <em>Parangolés</em>, <em>Bólides</em> e <em>Penetráveis</em> criados em Nova Iorque sim são considerados de alguma maneira “brasileiros”, mas as instalações multimídia, apologias à estética gay e consumo autodeterminado de substâncias psicoativas são todas consideradas “norte-americanas”. Na minha opinião, quem não sabe relacionar as <em>Cosmococas</em> com a fase neoconcreta de Oiticica não entendeu nem uma, nem outra. Esta estrita divisão, mais que contribuir de alguma forma produtiva, destaca a função subalterna da história da arte para o conceito representativo cultural do Estado-nação, ao mesmo tempo que adota sua moral e baixa ética pequeno-burguesa. Relacionado intimamente a isso, também considero que (2) falar de “exílio voluntário”, visto desde um ponto de vista político, é tão cínico como falar dos ativistas de oposição organizados e que ficaram no Brasil depois do AI-5 (1968) como “terroristas” que ameaçavam “a segurança dos cidadãos”. De fato, é esta argumentação a que diz: “Se não gostam daqui, por que não vão embora?”. E ao mesmo tempo legitima a repressão violenta. Mas certamente muitos dos que tiveram a oportunidade de sair antes de serem presos e puderam ficar fora, o fizeram. E se bem tiveram que lidar com trabalhos ilegais e assumindo uma vida precária, alguns ficaram melhor assim do que jamais tinham passado em ambientes reprimidos, católico-autoritários, nos quais tinham passado suas vidas até então. Quer dizer que quem não sabe relacionar as circunstâncias e decisões de vida (incluindo suas possibilidades) tomadas por Hélio Oiticica durante sua estadia em Londres e Nova Iorque, com as condições políticas e sociais vigentes no Brasil depois de 68, tampouco compreendeu nem umas, nem outras. Oiticica chamava o desdobramento das circunstâncias instáveis em sua vida “consequentizar” e até na escrita adicionava um decidido “<em>yeah!</em>”.</p>
<p>É o grande mérito da historiadora de arte Paula P. Braga, o de ter recuperado para a sua extensa e impressionante pesquisa monográfica quase indecifráveis manuscritos de Hélio Oiticica sobre seu relacionamento pessoal com a cocaína, além do seu uso nas Cosmococas e de ter agregado a isto uma reveladora excursão em uma espécie de segundo plano: o gesto metalinguístico. Isto se apresenta para nós como uma pequena análise do discurso moral sobre a cocaína na obra de Oiticica e em forma de uma extensa anotação de pé de página, que quis introduzir aqui sucintamente e logo citar algumas frases. [1 &#8211; BRAGA, Paula.<em>A trama da terra que treme: </em>multiplicidade em Hélio Oiticica. Tese de doutorado defendida no departamento de Filosofia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, 2007, p.40, anotação no. 71]</p>
<p>Primeiramente, Braga cita um texto de Hélio Oiticica, com o título “SCORPIONAS”, de 7 de novembro de 1974, que se encontra na primeira página de um de seus famosos <em>Notebooks</em>. Neste, Oiticica compara suas práticas sexuais e “dealing” com práticas que adaptam o ato de criação artística, da mesma forma que o jogo de xadrez fazia para Marcel Duchamp.[2 &#8211; Oiticica escreve sobre a comparação duchampiana: &#8220;Why not?: extravagant?: não vejo why!; mesmo porque não impede que outra coisa aflore mais floreante!: assim como aqui escrever p. ex. e ler!!: e mesmo assim lancar-planos-plantas-projetos!!&#8221; – Veja Hélio Oiticica: &#8220;SCORPIONAS&#8221;, nota de caderno de 7 de Novembro de 1974, Arquivo digital Hélio Oiticica Doc. 0148/74. Neste mesmo documento que Braga destaca o termo &#8220;consequentizar&#8221;, para discuti-lo em relação à produção artística de Oiticica. Veja Braga &#8220;A Trama da Terra que Treme&#8221; 2007, op cit.] Partindo da expressão “dealing”, desenvolve sua anotação nº 71. Braga escreve:</p>
<p>&#8220;O “dealing” citado nesse fragmento provavelmente é a venda de cocaína. Nos anos 1970, em Nova Iorque, Oiticica estava bastante envolvido com o uso de cocaína, e logo esse estreito relacionamento com as drogas no período em que viveu em Nova Iorque é um dos assuntos mais delicados no estudo da obra de Oiticica. O comentador não pode ser apologético, tampouco trair-se em moralismos. Então usualmente aborda-se esse assunto após a ressalva de que as drogas nos anos 1960 e 1970 tinham um caráter libertador e de experimentalismo muito distinto da associação contemporânea de drogas com violência e tráfico. Essas ressalvas confirmam a extemporaneidade desse assunto, ainda tabu no século 21, mas parece-nos insatisfatório encobrir a discussão com a “aura<em>hippie</em>” das drogas como parte de uma geração sonhadora e rebelde. O ambiente das drogas em Nova Iorque nos anos 1970 talvez fosse diferente do universo contemporâneo do tráfico no Brasil, mas nem por isso menos violento.&#8221;</p>
<p>O esforço de Braga de relacionar o tráfico de drogas nos Estados Unidos com o Brasil é único na literatura sobre Oiticica e é absolutamente legítimo. No extenso catálogo de anotações particulares de Oiticica, também se encontra a evidência de que a cocaína que usava, pintava e vendia, provinha originalmente da Bolívia e da Colômbia, mas a recebia muitas vezes pelo Brasil.[3 &#8211; Veja fichas de categorização de origem e qualidade que Hélio Oiticica fazia da cocaína que comprava entre 1974-75. Fichas manuscritas em inglês, Arquivo digital do Projeto Hélio Oiticica, Doc. 1508/sd.] Também, a violência que Braga menciona é evidentemente consequência lógica de se mover em círculos marginais criminalizados. Não esqueçamos que em 1971 Richard Nixon iniciou sua “guerra contra as drogas”, que foi o pretexto para criminalizar as poderosas uniões obreiras na Bolívia, ao mesmo tempo que criminalizava outros distintos movimentos de liberação latinoamericanos, assim como os Black Panthers nos Estados Unidos, etc. Não é ocioso dizer que a “guerra contra as drogas” foi um instrumento para assegurar a hegemonia branca e capitalista sobre todo o continente americano.</p>
<p>Mas Hélio Oiticica não seria um bom “artista trágico” se não se colocasse em cena fazendo sexo oral no cano de um revólver (como podemos ver no curta-metragem <em>H.O., </em>de 1979, de Ivan Cardoso, que se encontra em várias versões na internet), ou cortando a cocaína sobre um livro de John Cage (CC4) com uma navalha de borboleta (<em>balisong</em>), insígnia de credibilidade e violência das ruas. O mesmo Oiticica atua no curta-metragem em Super 8 de Andreas Valentin,<em>One Night on Gay Street</em> (1975), no qual a trama desemboca em uma cena violenta com uma morte, depois de um impasse na transação de drogas por dinheiro (não sabemos qual droga especificamente, mas sabemos que o comprador é o mesmo Hélio e que não tem dinheiro, mas oferece seus “serviços sexuais” antes de apunhalar o negociador e sair correndo com a presa). De fato, a primeira vez que Oiticica aparece em uma cena de violência explícita é jogando com um revólver em <em>Câncer</em>de Glauber Rocha (1968-72), filmado em 1968 em plena Zona Sul do Rio de Janeiro, na varanda da família Oiticica no Jardim Botânico.</p>
<p>É chamativo que se encontrem apenas discussões críticas sobre a marginalidade como conjunto histórico-político entre narrações historiográficas ou em teorias de arte contemporânea. Sendo que a cocaína e a reflexão sobre distintas formas de violência (violência de Estado e violência no submundo marginalizado, ambas terminam sendo a mesma violência que se expressa de maneiras diferentes) deixaram um inegável rastro na vida e obra de Hélio Oiticica. No entanto, como Braga percebe corretamente, enquanto no discurso atual se enfatizam as virtudes modernistas de Oiticica, mantendo vivo um progressismo nostálgico, o deslocamento de seus vícios não se dá somente em um sentido geográfico (“longe, em Nova Iorque”), mas também em um nível temporal-histórico (“há muito tempo, nos anos 60/70”).</p>
<p>Apesar disso, as famosas <em>Cosmococas</em> sim foram objeto de estudo de vários destacados críticos e autores internacionais. Carlos Basualdo, Beatriz Scigliano Carneiro, Paula P. Braga, Sabeth Buchmann, Waly Salomão, Fred Coelho, Sérgio Bruno Martins, Paulo Herkenhoff, Kátia Maciel, Cauê Alvez y Dan Cameron, entre outros, desenvolveram extensamente a importância das <em>Cosmococas</em> e<em>Quase-Cinemas</em> (1969-75) para o estudo das vanguardas da arte brasileira, para a história da instalação multimídia em geral e para o estudo da interseção entre arte e cinema na obra de Oiticica em particular. Todas estas prolíficas pesquisas sobre as <em>Cosmococas</em> pressupõem de maneira assertiva a cocaína como um meio de produção, como, por exemplo, é o pigmento para um pintor. A <em>mediatizam </em>como cor-tempo, ou como signo/linguagem. E ainda que todos saibam que a cocaína era e segue sendo uma substância ilegal, a história da arte quase não menciona este importante aspecto em seu sentido político e econômico, mas sobretudo enfatiza a representação simbólica da transgressão moral no uso da cocaína como pigmento ou meio. Como tinha mencionado anteriormente, isto parece natural, já que o instrumentário analítico empregado normalmente na história da arte é perfeitamente capaz de analisar a cocaína/pigmento psicoativo como meio de produção, mas não o é de analisar a cocaína/PRIMA como substância que sintetiza ao mesmo tempo as <em>relações</em> de produção,  isto é, a totalidade de condições de produção que determinam a vida de Oiticica nesse momento. O nome Cosmo-coca, de fato uma invenção de Neville D’Almeida, já nos diz: a coca não é somente coca cósmica, mas também sugere pensar em um núcleo no qual em torno se abrem determinadas órbitas, constelações, planos e circuitos que se definem por estarem em movimento perpétuo.</p>
<p>De certo modo, as <em>Cosmococas</em> não são tão diferentes dos <em>Bólides</em>, não somente pela semântica astrológica que empregam ou pelo explícito uso de “pigmentos” para serem “experimentados”, senão porque ambas as estruturas podem nos ajudar a pensar em como virar o mundo exterior e suas condições de vida para dentro da obra, sem recair em realismos. Já os <em>Bichos</em> de Lygia Clark, precursores diretos dos <em>Bólides</em>, marcaram uma mudança no paradigma da arte de vanguarda, superando a relação estática entre sujeito-objeto para finalmente virá-la de dentro para fora como um par de meias velhas, criando assim uma estrutura capaz de perceber tensões e fluxos emergentes de maneira “flexível”. No caso das <em>Cosmococas</em>, não faz falta dizer que implica a subsistência sustentada pelos circuitos informais/criminalizados na democracia liberal e nas condições de violência militar e social no Brasil, igualmente. Como na cosmologia, na <em>Cosmococa</em>tudo está conectado com tudo, em um movimento perpétuo, em circulações múltiplas e através de suas interseções e dinâmicas.</p>
<p>A grande diferença entre os <em>Bichos/Bólides</em>e a <em>Cosmococa</em> é que os planos e estruturas geométricas que encontramos nos primeiros são substituídos por outra lógica de movimentos, que convergem dando assim uma forma perceptível às últimas. Na <em>Cosmococa</em>, as duas categorias de movimentos imanentes, formações geométricas ou “abstratas” que constituem seu corpo são:</p>
<p><u>circulações</u>: a cocaína como mercadoria e como substância psicoativa no sentido metabólico, a diáspora da contracultura, a mobilidade e reprodutibilidade do cinema e da fotografia em comparação com as disciplinas tradicionais da arte, discos e livros que são produtos da indústria cultural e ao mesmo tempo meios de produção importantes e acessíveis para Oiticica; e</p>
<p><u>fluxos</u>: sensações, intensidades, consciência, libido, delírio, disponibilidade, extensões físicas/tecnológicas e afetivas, convergências de micro e macro-planos.</p>
<p>Entender <em>Cosmococa</em>com um princípio embasado em circulações e intensificações, em vez de meramente como um encontro de arte e cinema, é um primeiro passo para entender outras proposições e escritos de Oiticica que “trabalham” com cocaína, ou que fazem uso das novas tecnologias relacionadas à <em>aldeia global</em> (<em>global village</em>) mcluhaniana. Em 1973, Oiticica percebia com uma lucidez particular que as desregulações em todos os setores de produção e as transformações da economia de subsistência do novo precarizado pós-industrial eram tão somente o começo de mudanças muito mais profundas. Mudanças que também iriam redefinir a relação entre os micro e macroplanos que constituem o corpo, o dispositivo do desejo e a autoconcepção da sociedade na época da Guerra Fria. Oiticica falava de uma &#8220;dilatação aguda de todos os começos (corpo, sensorialidade, etc.)&#8221; que &#8220;não pode ser descrita factualmente&#8221;. Parafraseando o que Oiticica dizia comparando a<em>Baba Antropofágica</em>de Clark (1973) com &#8220;minha relação com a PRIMA&#8221;, poderíamos dizer que é nesse contexto que Oiticica e D’Almeida lançam sua <em>Cosmococa</em> &#8220;como a criação cósmica de um universo desconhecido que se faz no lance de dados; que não depende de &#8216;escolhas dualistas”. Se bem que a mesma cocaína a figurar nas <em>Cosmococas,</em> como a transa da boemia libertária nova-iorquina, é também o estimulante dos corredores de Wall Street. Oiticica encontra uma linha de fuga incorporando-a ao mesmo tempo como o espírito que marca os pontos riscados da contracultura brasileira na diáspora.</p>
<p>Esta particular convergência faz das <em>Cosmococas</em>um testemunho verdadeiramente “brasileiro” em um momento de profundas transformações na economia global e na constituição social. Como diz Beatriz Scigliano Carneiro: as <em>Cosmococas</em> de certo modo antecipam &#8220;o deslocamento das técnicas de poder da sociedade disciplinar para as estratégias da sociedade de controle.&#8221;[4 &#8211; Cit. Beatriz Scigliano Carneiro, &#8220;Cosmococa–Programa in Progress: Heterotopía de Guerra&#8221;, em &#8220;Fios Soltos, A Arte de Hélio Oiticica&#8221; org. Paula Braga, São Paulo: Perspectiva, 2008, p.208 &#8212; Violando a hermética de disciplinas acadêmicas, o trabalho da socióloga Scigliano Carneiro assinalou uma nova perspectiva, importante para comprender Clark e Oiticica, que supera deliberadamente as categorias de &#8220;obra&#8221; e &#8220;história da arte.&#8221; Veja tambén: Beatriz Scigliano Carneiro &#8220;Relâmpagos com claror: Hélio Oiticica e Lygia Clark, vida como arte&#8221; São Paulo: Editora Imaginário, 2004.] Visto ante esse fundo, ainda nos faltam muitas interseções e planos convergentes por investigar.<a href="#_ftnref1" name="_ftn1"></a></p>
<p>O post <a rel="nofollow" href="http://www.revistatatui.com.br/edition_text/a-prima-do-helio-a-pemba-da-marginalia-o-po-da-boemia-anotacoes-inside-the-heliocopter/">A PRIMA do Hélio, a pemba da marginália, o pó da boemia: anotações —Inside the Héliocopter</a> apareceu primeiro em <a rel="nofollow" href="http://www.revistatatui.com.br">Revista Tatuí</a>.</p>
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