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	<title>Lígia Nobre &#8211; Revista Tatuí</title>
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	<description>Revista de crítica de arte</description>
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		<title>Modos de aproximação</title>
		<link>http://www.revistatatui.com.br/edition_text/modos-de-aproximacao/</link>
				<pubDate>Fri, 31 May 2019 21:37:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Revista Tatuí]]></dc:creator>
		
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								<content:encoded><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
<blockquote>
<p style="text-align: right;">“&#8230;o mais importante é inventar o Brasil que nós queremos&#8230;”</p>
</blockquote>
<p style="text-align: right;">Darcy Ribeiro</p>
<p>O ponto de partida do ensaio <em>Como a arte global transforma a arte étnica </em>(2009), de Laymert Garcia dos Santos, é a interseção entre o conceito de “arte global” (das relações entre arte contemporânea e arte étnica) de Hans Belting e Andrea Buddensieg, e sua institucionalização – particularmente no que tange aos museus e exposições na Europa nos últimos anos. A exposição <em>Die Tropen</em> (<em>Os Trópicos. Visões do Meio do Globo</em>), com curadoria de Alfons Hug, Peter Junge e Viola Konig, realizada no <em>Martin-Gropius Bau</em> em Berlim no segundo semestre de 2008, é problematizada através de uma lente tropical, um “olhar brasileiro” impactado pelo estopim da crise financeira e as consequentes reconfigurações na geopolítica mundial. Garcia dos Santos apresentou este ensaio na Fundação Joaquim Nabuco, no Recife, em novembro de 2009, no âmbito do Seminário Internacional <em>Depois do Muro: a geopolítica das artes</em>, cuja primeira versão fora publicada na Alemanha no livro <em>The Global Art World – Audiences, Markets and Museums</em>, editado por Hans Belting e Andrea Buddensieg (ZKM/Hatje Cantz, 2009). Ambas as versões foram disponibilizadas no<em> website</em> do fórum internacional <em>geopolítica da cultura e da tecnologia,</em> com curadoria dele e de Gilberto Gil, realizado em novembro de 2010 na Cinemateca Brasileira em São Paulo com apoio do Ministério da Cultura. As instâncias de publicização deste ensaio, junto a seus principais argumentos, nos apresentam indícios importantes dos atuais diagramas e forças em jogo, i.e., do momento de transformação intensa e acelerada que estamos passando no país e no mundo, e suas implicações para a “crítica de arte” no Brasil, a partir da internacionalização das produções artísticas feitas aqui, assim como de sua capacidade de apontar nossas contradições e desafios internos.</p>
<p>Para o autor, a exposição <em>Die Tropen</em> se inscreve num movimento que começou com a exposição <em>Magiciens de la Terre</em> no <em>Centre George Pompidou</em> em 1986, passou pela abertura do <em>Musée des Arts Premiers,Quai Brainly</em> em Paris em 2006, no qual perdura pressupostos conceituais que reificam as convicções convencionais sobre o “ocidente” e seu “outro”. O principal problema conceitual em <em>Die Tropen</em> estaria nos modos de aproximação entre arte étnica e arte contemporânea: ambas são consideradas a partir de um denominador comum inscrito no paradigma da linguagem da representação (um “visualistic approach”) e do caráter atemporal da arte, e igualmente consideradas metáforas de uma natureza que lhes seria comum. Esses pressupostos, ao invés de serem tomados como dados, deveriam ser a própria problemática a ser tratada, caso efetivamente se quisesse confrontar as obras de modo produtivo e discutir as diferentes perspectivas sobre os Trópicos<em>.</em> Como assinala o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, somente o “homem ocidental” consideraria que temos uma natureza comum e múltiplas culturas; na perspectiva ameríndia, existem múltiplas naturezas e uma única cultura. A especificidade do olhar para as artes indígenas implica em não tomar como referência nenhuma definição de arte previamente dada, seja ela estética, interpretativa ou institucional. Como ressalta a antropóloga Els Lagrou, “o lugar que os objetos poderiam ocupar na escala valorativa instaurada pelo mercado das artes e pelos museus não, necessariamente, pertence ao universo das intenções e valores nativos que podem visar a objetivos muito diferentes dos ligados à conquista de visibilidade ou afirmação de identidade e ‘autenticidade’”.[1 &#8211; LAGROU, Els. <em>Arte indígena no Brasil: agência, alteridade e relação</em>, Belo Horizonte: C/Arte, 2009.]</p>
<p>O feixe de ambiguidades se desdobra em “como ver, por exemplo, a aproximação da tela <em>Sampa</em>, de Beatriz Milhazes, de um cocar do povo indígena Rigbatsa, do Brasil, ou de um <em>Bark Painting</em>, de Papua-Nova Guiné? (&#8230;) É “como se [a arte étnica] servisse de pano de fundo, de ambientação e <em>décor</em> para o display das obras dos artistas contemporâneos”. A artista brasileira<em> “</em>desperta interesse por ser “glocal”, isto é, alguém que ancora seu trabalho na linguagem internacional do modernismo e ao mesmo tempo finca suas raízes em seu tempo e sua cultura”. Laymert situa, de maneira instigante, que na ponta oposta àquela ocupada por Milhazes – entre o contemporâneo e o étnico nesse espectro global – estariam os artistas aborígenes.</p>
<p>O que nos interessa neste ensaio é atentar para a busca de novos modos de aproximação, para a urgência de se inventar e articular novas matrizes e entendimentos para a arte no/do Brasil: <em>“</em>o que deveria ser levado em conta é que a arte moderna e contemporânea brasileira nunca tentou levar a sério sua não relação com a arte étnica que era e ainda é produzida, porque ela nunca sequer se colocou a questão se os povos indígenas e tradicionais costumavam produzir arte e ainda continuam a fazê-lo”. O autor aposta que <em>“no âmbito do que Belting entende por arte global, o Brasil emerge como um lugar privilegiado para se acompanhar as transformações do que se entende por arte contemporânea e por arte étnica, e a fecundação, ou não, de uma pela outra”.</em></p>
<p>Nas últimas três décadas, a pintura aborígene contemporânea na Austrália passou a ter boa aceitação no mercado ocidental e nas instituições museológicas, assim como manteve o diálogo com suas tradições ancestrais, acumulando várias camadas de significado. Esta expressão cultural congrega diversos agenciamentos e interesses, às vezes conflitantes, entre os diversos artistas, centros de artes, galeristas, museus, curadores e colecionadores. A antropóloga Ilana Seltzer Goldstein aponta o paradoxo de que o <em>“</em>mesmo país cuja política colonial foi extremamente racista e violenta dê tanto espaço às culturas aborígenes nos museus, crie políticas de fomento às artes indígenas”<em>. </em>(E que este apoio público) <em>“Talvez seja uma tentativa de resposta e compensação por este passado obscuro não tão distante. Ao mesmo tempo, encaixa-se perfeitamente no projeto nacional de construção de uma identidade própria para a Austrália, que a diferencie da Inglaterra</em>”.[2 &#8211; GOLDSTEIN, Ilana Seltzer, <em>Pintura aborígene contemporânea: </em>do sagrado ao mercado, apresentado na 27ª Reunião Brasileira de Antropologia, agosto 2010, Belém, Pará.] E questiona por que no Brasil praticamente não existe reconhecimento das artes indígenas, e se seria possível e desejável uma política semelhante se desenvolver entre nós. Noutro sentido, nos países andinos é muito presente o debate sobre estética decolonial[3 &#8211; Vide Walter Mignolo, <em>Desobediencia Epistémica</em>, Buenos Aires, Ediciones del Signo. 2010; ed. Walter Mignolo &amp; Árturo Escobar<em> Globalization and the Decolonial Option</em>, Routledge, London &amp; New York 2010; dentre outros.] – como a proposta por Anibal Quijano, Walter Mignolo, dentre outros – a partir das culturas tradicionais e ancestrais, como condição de crítica e contraposição às modernidades coloniais desde fins do século 15 até a globalização atual.</p>
<p>No Brasil, Garcia dos Santos nos lembra que “arte e cultura brasileiras já haviam tentado elaborar, dentro da matriz moderna ocidental, a sua diferença específica como tropicalidade, através da Antropofagia de Oswald de Andrade, nos anos 20, do tropicalismo, nos anos 60, e do trabalho revolucionário e complexo de Hélio Oiticica, que soube romper com as persistentes oposições arte erudita/arte popular; arte europeia/arte não europeia, arte internacional/ambiente local, etc.” Se a crítica de arte no Brasil teve uma função histórica importante nas construções de “identidades brasileiras” ao longo do século 20, embebida nessa matriz moderna ocidental como modernidade ex-cêntrica[4 &#8211; Termo de Beatriz Sarlo. In: <em>Una modernidad periférica: Buenos Aires 1920 y 1930</em>, Buenos Aires: Ariel, 1988], ainda reproduzimos um colonialismo interno (que reproduz o pressuposto do ‘ocidental’ e seu ‘outro’) que assola o país desde o modernismo, com uma suposta centralidade entre Rio de Janeiro e São Paulo.</p>
<p>O discurso da “arte global” e sua institucionalização em museus e mercado são intrínsecos à matriz ocidental, ainda predominante mundialmente, mas desde 2008, com a crise financeira e novas configurações geopolíticas, ocorre uma crise desses paradigmas. Esta crise abre brechas para novas articulações e entendimentos, particularmente para o Brasil? Temos uma grande reunião de repertórios, vivências, observações, ao mesmo tempo em que existe a transformação em algo novo&#8230; Essas novas forças externas nos ajudam a rever ou reificam os paradoxos, confusões e deslizes semânticos no Brasil? Nosso modelo de desenvolvimentismo e de progresso a qualquer custo tem solapado as comunidades tradicionais e ancestrais e nossa natureza. É possível um discurso da arte brasileira capaz de formular os problemas e de explicitar as forças atuais em jogo? Que discursos estão presentes? Quais mecanismos estão operando? Quais aparatos críticos nós utilizamos? Que diagramas de alteridade são capazes de enfrentar o mercado? Como articular, aproximar outras matrizes? Como inverter as relações cognitivas?</p>
<p>Em maio de 2011, um jornal paulistano apresentou a primeira e única banda de rap indígena no Brasil, Brô MC’s [5 &#8211; Ver http://periferiaemmovimento.wordpress.com/2011/05/25/no-estadao-os-pioneiros-do-rap-indigena/], do Mato Grosso do Sul. A banda nos ensina, com sua inversão cognitiva, que “esta possibilidade de coexistência e sobreposição de diferentes mundos que não se excluem mutuamente é a lição ainda a ser aprendida com a arte dos ameríndios”[6 &#8211;   LAGROU, Els. <em>Arte indígena no Brasil: agência, alteridade e relação</em>, Belo Horizonte: C/Arte, 2009.], a arte como uma arte de construir mundos.</p>
<p><a href="#_ftnref1" name="_ftn1"></a></p>
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