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	<title>Cristiano Lenhardt &#8211; Revista Tatuí</title>
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	<description>Revista de crítica de arte</description>
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		<title>Cruza como devoração</title>
		<link>http://www.revistatatui.com.br/edition_text/cruza-como-devoracao/</link>
				<pubDate>Fri, 31 May 2019 22:23:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Revista Tatuí]]></dc:creator>
		
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								<content:encoded><![CDATA[<p><em>Com Yuri Firmeza, Pierre Clastres, Oswald de Andrade, Eduardo Viveiros de Castro, Ludwig Wittgenstein, Hélio Oiticica, Giorgio Agamben, Sigmund Freud, Paul Valéry, Jacques Ranciere.</em></p>
<hr />
<p><strong>Beijo de maçã</strong></p>
<p>Permitir o risco da reciprocidade: eu confio em você, mas talvez eu não seja de confiança. Amor pelo <em>outro</em> não é mantê-lo a salvo. Tampouco é devorá-lo para tê-lo cá dentro. Amor maior pelo <em>outro </em>é comê-lo para estabelecer o direito à vingança, eterna procura de uns pelos outros. Te como pra que você me coma pra que eu te coma pra você me comer. Ódio e amor se confundem.</p>
<p><strong>Pedra na cabeça</strong></p>
<p>Alteridade como fenômeno topológico da linguagem, não substancial: cortar, não fazer equivaler. Palavras, imagens e sentidos não se igualam. Eu confio em você, mas talvez eu não seja de confiança. Não prover ao <em>outro</em> uma interpretação de mundo, sequer plasmar-lhe um mundo para sua interpretação. Experimentá-lo como o fora, zona de ignorância. Ambiguidades de linguagem como participação do espectador, compulsória generosidade da arte.</p>
<p><strong>Arrastar o corpo</strong></p>
<p>Eu confio em você, mas talvez eu não seja de confiança. Ninguém é humano quando nasce: é preciso fazer-se humanos através dos <em>outros</em>, pelas mãos dos outros humanos<em>, </em>pelo uso que nos dão no seio da humanidade. Incessantemente. Se a profanação – colocação em uso – é pedra fundamental do humanizável, toda humanização deverá passar pela economia do valor de uso: regresso de deus à horda, do pai à condição de filho. Contínua transformação do tabu em totem.</p>
<p><strong>Tijolo ao chão</strong></p>
<p>Linguagem é superfície, pele da humanidade, o que temos de mais profundo. Nela, tudo está disponível porque nada está posto; o possível sempre supera a impossibilidade. Não há nada de errado na linguagem, desde que não se queira fazer equivaler palavras, imagens, sentidos. Eu confio em você, mas talvez eu não seja de confiança. Manter a linguagem em descolamento perpétuo: unir cacos não é função da arte ou da crítica. No terreno da ambiguidade, a tarefa é continuar mudando o valor das coisas.</p>
<p><strong>Olhar vago</strong></p>
<p>Positivação da superfície face à profundidade meritocrática: continuar fazendo nada de peito aberto. Gerúndio existencial do <em>estando</em> contra o afirmativo retórico do <em>ser</em>. Para além dos tabus das disjunções exclusivas (ou <em>eu</em>, ou o <em>outro</em>) e do imperativo categórico (colonização da liberdade pela reciprocidade entre <em>eu</em>e <em>outro</em>): eu confio em você, mas talvez eu não seja de confiança.</p>
<p><strong>Olhar cruzado</strong></p>
<p>Mastigar dois olhos e deixá-los mastigar os teus, até que se possa descoincidir o ponto de fuga: desestabilização da fixidez pela devoração do <em>outro</em>. Desconjuntamento do regime óptico-ético unidirecional do cinema: há verdade em todos os lados do corpo e da questão. Eu confio em você, mas talvez eu não seja de confiança. Ambivalência originária: outros gentios são incrédulos até crer; os brasis, ainda depois de crer, são incrédulos.</p>
<p><strong>Querer fazer parecer que chora</strong></p>
<p>Fingir não é propor engodos, mas elaborar estruturas inteligíveis. Não há razão ou erro na linguagem. Não querer fazer coincidir palavras com imagens, com sentidos: manter aceso o conflito que desapareceria na realização utópica. Eu confio em você, mas talvez eu não seja de confiança.  Ambivalência e contradição. Contra a síntese, morte e vida das hipóteses.</p>
<p><strong>Sombra-cartaz</strong></p>
<p>Outras dimensões se revelam na projeção na tela: a sombra do corpo é forma, não luz narrativa. Há todo um mundo por detrás, que talvez seja de confiança.</p>
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